Nossos pés também carregam história

por Maria Júlia Freitas

Por Brenda Nury

É fascinante como olhar para a história do homem revela as necessidades humanas que moldaram o que calçamos hoje. Há 40.000 anos, nossos ancestrais já criavam protótipos de sapatos para proteger os pés usando materiais naturais, como couro animal costurado ou folhas grandes amarradas, para evitar machucados e facilitar a mobilidade. No Egito, os sapatos indicavam a classe social: escravos descalços, homens livres com sapatos de folhas de papiro e os nobres com sandálias pontudas. Em Roma, as sandálias também eram símbolos de status. Na Idade Média, os sapatos eram de tecido, levemente pontiagudos e sem distinção de gênero. Quanto mais pontiagudo o sapato, maior a classe social.  Já o século XIX viu o protagonismo de sapatos baixos e botas. Na Revolução Francesa, a rejeição a monarquia e de seus símbolos, incluiu os saltos altos em sapatos.

Mas assim como todos os adornos e vestes que cobrem o corpo de homens e mulheres atualmente, os calçados também deixaram de ser apenas utilitários e se tornaram a própria expressão do que somos, sentimos e pensamos. E foi exatamente o que fez a marca de sapatos artesanais “Gata de Rua”, durante a pandemia. Partiu da necessidade humana de se expressar e da necessidade social de conforto, propondo que seus clientes cocriassem com a marca, trazendo seus tecidos que vinham de roupas com valor sentimental para produzir novos sapatos e sandálias. Uma ideia genial que impulsionou a marca e os pedidos enviados para o Brasil inteiro.

Com uma produção artesanal, Graciele divide seu tempo em uma jornada de mãe e empresária. A habilidade manual já vem de muito tempo, mas a turismóloga descobriu a habilidade há pouquíssimo tempo se analisarmos a qualidade técnica, o ateliê muito bem estruturado e o acabamento impecável de seus calçados.

A moda pode ser incrivelmente destrutiva quando trabalhada apenas em seu viés de consumo, e isso posso garantir a vocês, não se aplica a “Gata de Rua” com uma produção pensada para o mínimo de desperdício, para a reutilização de matéria prima, para uma maior durabilidade e para fazer sentido afetivo, seus calçados dão um show no quesito responsabilidade ambiental e social, além de possuir modelos atemporais, dando muito mais possibilidades de uso e combinações com todo tipo de guarda-roupas.

Durante a visita ao ateliê pude perceber o carinho que Graci (sim, quero muita intimidade com ela) coloca em cada peça, das mais variadas coleções, no mundo. O que torna suas peças inestimáveis.

Nenhuma roupa ou sapato deveria ser comprado para atender a um desejo apenas de estação, consumir em mundo de recursos finitos, exige responsabilidade e inteligência ao construir um guarda-roupas que na verdade é seu acervo de uma vida. Com isso não quero julgar o seu consumo, mas quero deixar um bom exemplo e uma indicação pessoal como Personal Stylist, valorizem as marcas artesanais que fazem da moda muito mais do que cópias das grandes marcas internacionais, elas trazem para sua produção a moda que exprime a nossa cultura, o nosso jeito de sentir o clima e a usabilidade dos materiais. Invistam em marcas que se preocupam em como vão estar seus produtos em 10 ou 20 anos. Se um calçado perde sua utilidade em menos de 1 ano ele não deveria fazer parte do seu acervo, ou no mínimo, deveria poder ter condições de ser usado por outras pessoas. O que vestimos tem a ver com o que vamos deixar em maior ou menor grau para o mundo.

 

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